A Áustria foi nosso 11º país e Viena entrou no roteiro quase por preguiça de logística: estávamos morando em Bratislava, e as duas capitais são tão coladas que o ônibus entre elas leva basicamente uma hora. Deu pra ir numa sexta e voltar no domingo.
Essa é uma estratégia que usamos bastante nessa época: o fuso horário com o Brasil ajuda, então dava pra viajar de manhã, trabalhar à tarde do hotel e ter o fim de semana inteiro livre. Foi assim que conhecemos a Eslovênia e o interior da Eslováquia também.
Esse post é o que deu pra fazer em três dias, quanto custou de verdade (Viena é cara e a gente não vai fingir que não é) e as duas ou três coisas que faríamos diferente.
Depois de tanta arquitetura na Europa, Viena ainda impressionou a gente




No fim da viagem, com certeza Viena já tinha entrado na lista das cidades mais bonitas que a gente já viu, e talvez no topo dela. A definição que saiu na hora foi "cidade glamorosa": prédio enorme, palácio enorme, muito dinheiro acumulado. Depois de um tempo na Europa achávamos que íamos parar de nos impressionar com arquitetura, e Viena resolveu esse problema.
E vale 3 dias em Viena? Vale, e três dias é uma medida honesta pro centro. Dá pra encaixar os dois palácios grandes, as igrejas principais, um mercado e ainda sobrar tempo pra sentar num café sem cronômetro.
O aviso que vem junto: foi a cidade com o transporte público mais caro por onde passamos até então, mais caro que Nova York. Não é motivo pra tirar do roteiro, é motivo pra planejar, e a seção de transporte lá embaixo resolve isso.
Catedral de São Estevão (Stephansdom)



Saímos do metrô no centro e demos de cara com ela sem procurar. A Stephansdom é uma das catedrais mais bonitas que a gente já viu, bem gótica, e o telhado é a parte que rouba a cena: colorido, com desenho geométrico, muito parecido com o da Igreja Matias que tínhamos visto em Budapeste.
Depois que você conhece essas igrejas de telhado colorido, é difícil alguma outra ganhar delas. É o ponto de referência natural do centro, então você vai passar por ali várias vezes sem querer.
Igreja de São Carlos (Karlskirche)


A Karlskirche fica na Karlsplatz e dá nome à praça. É barroca, tem duas colunas altíssimas na frente que não parecem coisa de igreja, e o domo é turquesa. Ficamos um tempo tentando definir com o que ela parecia e a conclusão foi que tem um jeito meio de mesquita, por causa do domo.
A história dela é boa: foi construída por volta de 1700, depois de uma peste bubônica que matou boa parte da população de Viena. O imperador da época, que também se chamava Carlos, fez um voto de que construiria a igreja quando a cidade se livrasse da peste.
A entrada custa €9,50. Também dá pra entrar assistindo a um concerto, e aí os preços que vimos iam de €30 a €50.
Palácio Hofburg: 2.600 quartos no meio da cidade



O Hofburg é onde morava a família Habsburgo, que provavelmente foi uma das dinastias mais poderosas da Europa e controlou o império austro-húngaro até o fim da Primeira Guerra.
Não cabe numa foto. Ficamos lendo na frente da entrada principal que ele tem mais de 2.600 quartos, e a reação foi exatamente essa. Você olha pra qualquer direção e ainda é o palácio. Fica no meio do centro, então não custa deslocamento nenhum encaixar no roteiro.
A biblioteca do Hofburg: os únicos 10 euros que a gente pagou




Essa era a coisa que mais queríamos ver em Viena, e foi literalmente o único ingresso que compramos na cidade inteira. Vale registrar isso: dá pra fazer Viena quase toda por fora, e escolhemos gastar em um lugar só.
A biblioteca do Palácio Hofburg é uma sala, com teto altíssimo pintado, estantes de madeira até em cima e detalhes pintados imitando a própria arquitetura, tipo sacadinhas que não existem. Nunca tínhamos visto pintura fazendo esse truque.
Custa €10 e é um cômodo só, então dá pra achar caro no papel. Saímos de lá achando que valeu. Se você tiver que escolher uma única coisa paga em Viena, a gente escolheria essa.
Belvedere: a portinha que esconde um jardim gigante



O Belvedere foi a melhor surpresa da viagem pelo jeito como acontece: você está andando no meio da cidade, entra por uma portinha e do nada tem um jardim gigantesco na sua frente.
O palácio é duplo, tem a parte de baixo e a de cima, com dois museus diferentes. A gente não entrou em nenhum dos dois, ficou só no jardim, que é gratuito. No museu de cima fica "O Beijo", do Gustav Klimt.
Mas tirando toda a imensidão desse jardim, ficamos impressionados como as flores do jardim eram a bagunça mais bonita que existe, porque tem todas as cores de flor possíveis ao mesmo tempo e ainda assim funciona.
O jardim entre os dois palácios é gratuito e já entrega boa parte da beleza do lugar. Você paga só pra entrar nos museus. Se o orçamento estiver curto, o jardim sozinho vale a parada.
Palácio Schönbrunn: 266 campos de futebol





O Schönbrunn era a residência de verão dos Habsburgos e é o maior palácio da Áustria. Tem uma linha de metrô que deixa quase na porta, saindo direto do centro.
Pela frente ele não impressiona tanto. A virada é quando você vai pro fundo, onde ficam os jardins: são 86 hectares, algo como 266 campos de futebol. Aí o tamanho da coisa aparece.
Duas curiosidades que gostamos de aprender ali. A primeira é a lenda de que a receita original do croissant nasceu nesse palácio, feita pra comemorar a vitória contra os otomanos. A segunda é que foi ali que Mozart fez uma das primeiras apresentações da vida dele, aos 6 anos de idade.
No alto do morro tem a Gloriete, e a subida pede um pouco de fôlego. Era ali que o imperador e a imperatriz tomavam café da manhã: dizem que ela queria o palácio construído lá em cima pra ver a cidade inteira, disseram que era caro demais, e a Gloriete foi o meio-termo.
Os jardins são de graça, você paga só pra entrar no palácio e ver os quartos.
O zoológico mais antigo do mundo fica dentro do Schönbrunn

Dentro do terreno do Schönbrunn fica o zoológico de Viena, que é o mais antigo do mundo. Existiram outros lugares chamados de zoológico antes dele, mas eram mais coleções particulares de animais. Esse foi o primeiro que se assumiu como zoológico e cobrou entrada de visitante.
Custa €26 por pessoa e não entramos, então não dá pra falar por experiência própria. Se você viaja com criança, isso resolve uma tarde inteira sem sair do mesmo lugar.
Ópera Estatal e a cidade da música



Viena é chamada de cidade da música porque investiu pesado nisso: muitas casas de ópera, e foi casa de Mozart, Beethoven e Strauss. Depois que você entende isso, metade da cidade faz mais sentido, porque tem show de música clássica e ópera em todo canto.
A Ópera Estatal é a maior de Viena e uma das maiores do mundo. Dá pra saber que uma cidade leva ópera a sério quando o prédio parece mais um palácio do que um teatro: teto altíssimo, detalhes dourados em volta, e atravessamos a rua só pra olhar de perto.
Até pensamos em assistir alguma coisa. Os preços que vimos estavam entre €200 e €300, então ficou pra próxima.
Albertina: Monet e Picasso


Do lado da Ópera fica a Albertina, um dos museus mais conhecidos da cidade, com obras de Monet e Picasso. Uma coisa boa de Viena é que tudo isso está a poucos minutos de caminhada um do outro, então dá pra decidir na hora.
Fica como opção pra quem gosta de museu e está com os três dias mais folgados. A gente não entrou em nenhum dos dois, então não dá pra comparar acervo. Se for pra escolher só um endereço pra andar, o jardim do Belvedere é de graça.
Naschmarkt: 1,5 km de mercado





O Naschmarkt é o maior mercado aberto da Áustria, tem cerca de 400 anos e mais ou menos 1,5 km de extensão. Os locais dizem que se não tem no Naschmarkt, você não precisa, e depois de andar por ele entendemos a piada.
Tem produto fresco, tempero, e uma quantidade de azeitona que não esperávamos. A Bia ficou parada num box só olhando: azeitona vermelha, azeitona recheada com pimenta, coisas que nunca tínhamos visto (deu para perceber que ela gosta de azeitonas, né?!). Aos sábados rola um mercado de pulgas junto.
Não é só barraca: tem vários restaurantes pra sentar e almoçar de verdade também.
Vollpension: o café das vovós (e a Sacher Torte que a gente comeu)






Esse é o lugar que a gente mais recomenda de Viena, e não é palácio.
O Vollpension é um café decorado como a casa de uma avó, e a proposta vai além da decoração: boa parte das pessoas que trabalham ali são idosas, e o café existe justamente pra empregar essas pessoas. Você chega, escolhe um pacote de comida e bebida, recebe uns "dólares da vovó" pra trocar por bolo, e café e bebida gelada são à vontade por uma ou duas horas, dependendo do pacote.
Pegamos dois bolos. O primeiro foi o Apfelstrudel, que eu jurava ser alemão e é austríaco: é a torta de maçã de massa fina que a gente já conhece no Brasil, e veio com um monte de creme.
O segundo foi a Sacher Torte, e aqui está o ponto principal desta seção. A Sacher Torte é um bolo de chocolate com recheio de damasco criado em Viena, e é o doce mais famoso da cidade. Acontece que quase todo vídeo que assistimos antes de viajar dizia que ela não é tão boa quanto a fama. O Vollpension foi um dos únicos lugares em que vimos gente elogiando, e foi por isso que escolhemos comer ali.
Valeu. O damasco dá um gosto muito bom, e dá pra entender pra que serve o creme que vem junto: o bolo é bem seco, seco mesmo, e o creme resolve. A conta dos dois bolos mais bastante café ficou €25,80.
Figlmüller: o schnitzel clássico




O schnitzel é o prato símbolo da Áustria, e o Figlmüller é onde fomos comer o nosso. É tão tradicional que ocupa praticamente um quarteirão inteiro e se apresenta como o schnitzel mais famoso de Viena. Existe desde 1905 e a receita é a mesma. Fizemos reserva, e recomendamos fazer.
Pedimos a versão de porco, que o menu marcava como a mais tradicional. O empanado vem perfeito, bem crocante, a carne macia por dentro, e se come com limão. Mas a surpresa foi o acompanhamento: a salada de batata vienense, leve e meio adocicada, que combina com a fritura de um jeito que não esperávamos. Foi a cereja do bolo.
O schnitzel, a salada de batata e uma água com gás grande ficaram €31,90. É caro, e é um bom termômetro do que restaurante de Viena custa.
Detalhe que resume bem o tamanho da fama do lugar: eles vendem um quebra-cabeça de schnitzel por €12,90. A gente tem uma teoria de que loja com souvenir é sinal de lugar bom, e essa aqui levou a teoria longe demais.
Bitzinger: o cachorro-quente de Viena


O hot dog vienense se come em quiosque de rua. Fomos no Bitzinger, que é conhecido pela salsicha, e pegamos a de queijo. Tinha fila, o que a gente sempre lê como bom sinal.
O detalhe que achamos genial é o pão: eles não cortam ao meio. Fazem um furo, colocam ketchup e mostarda lá no fundo e encaixam a salsicha dentro, deixando a tampinha. A salsicha de queijo vem bem cremosa e com bastante gosto de carne. Curiosidade pro leitor brasileiro: a salsicha "viena" que a gente compra no Brasil é inspirada nessa, então foi a mais familiar de todas as que comemos na viagem.
Pra acompanhar pegamos um Almdudler, o refrigerante local, que é feito de ervas de montanha tipo manjericão e orégano. Não tem gosto de nada disso: eu defino bem como guaraná Antártica bem fraquinho, e é uma descrição justa. O hot dog com o refrigerante saiu €11.
A armadilha de turista em que a gente caiu: o bombom do Mozart

Fica a confissão, porque ela poupa o seu dinheiro. O Mozartkugel é um bombonzinho redondo com a cara do Mozart, criado por um fã dele há muito tempo, que até ganhou prêmio numa competição de doces em Paris. Está em toda loja de souvenir da cidade.
A Bia não é muito de chocolate e só topou porque uma das versões era de pistache. Cada um custou uns 90 centavos de Euro. O de pistache não tinha gosto de pistache: o miolo tem gosto de chocolate e pronto. Foi ruinzinho, pra ser honesto.
O veredicto da gente: Mozart era melhor na música. Se quiser levar lembrancinha comestível de Viena, os wafers tradicionais que compramos depois eram muito melhores, com a bolacha bem crocante. E se você vir gente saindo de loja com sacola cheia de Mozartkugel, é presente pra levar pra casa, não porque é bom.
Transporte em Viena: quanto custa de verdade



Que Viena era uma cidade cara, nós já sabíamos, mas o transporte público surpreendeu. O bilhete individual custa €2,40, e foi o transporte público mais caro que pegamos em qualquer cidade até então, mais caro que o de Nova York.
A conta que fecha é o passe. Pegamos o passe de 72 horas por €17,10 por pessoa, ilimitado no metrô e no ônibus, comprado direto pelo aplicativo. Com três dias andando pra todo lado, ele se paga em pouco mais de sete viagens. Existem também passes de 24 e 48 horas.
Duas dicas de uso:
- Comprar pelo app evita o bilhete de papel, que você precisa validar na maquininha toda vez que usa.
- O Google Maps funciona perfeitamente aqui, indicando estação e sentido certinho.
E uma dica de etiqueta que pode salvar seu dia: na escada rolante, quem não vai subir fica do lado direito. O pessoal leva isso a sério, e levar bronca em alemão soa bem mais bravo do que em qualquer outra língua.
(Todos os preços deste post são de setembro de 2023, que foi quando a gente esteve lá. A gente não anotou a cotação do euro naquela semana, então deixamos tudo em euro mesmo em vez de chutar a conversão. Confira antes de viajar, mas a lógica do passe continua valendo.)
Como chegar em Viena (e onde ficar)
Fomos de ônibus saindo de Bratislava e levou basicamente uma hora. É uma das conexões mais fáceis da Europa: duas capitais coladas, e dá pra fazer bate-volta se você estiver baseado em uma delas. Foi exatamente assim que montamos o fim de semana.
Se você está vindo do Brasil, Viena tem aeroporto internacional e é um hub bem conectado com o resto da Europa.
Pra hospedagem, ficamos num hotel um pouco afastado do centro e resolvemos tudo no transporte público. Com o passe de 72 horas na mão, ficar perto de uma estação de metrô importa mais do que ficar no centro exato, e costuma sair bem mais barato.
Viena entrega exatamente o que promete: palácio grande, música clássica no DNA e tudo funcionando. Não é barata, e a gente prefere dizer isso com número do que com adjetivo. Mas com o passe de transporte certo, os jardins que são de graça e um ingresso escolhido a dedo, ela cabe num fim de semana sem estourar o orçamento.
Se a gente pudesse eleger uma coisa pra você não perder, seria a biblioteca do Hofburg. Uma pra comer, o café das vovós. E uma pra pular sem culpa, o bombom do Mozart.
E se estiver montando roteiro pela região, a gente morou em Bratislava, que fica a uma hora daqui.