Istambul já estava no roteiro quando descobrimos que ela é a maior cidade do mundo dividida entre dois continentes. E aí a pergunta que não saía da cabeça: dá diferença? O lado asiático é mesmo diferente do europeu, ou é só uma linha no mapa?
Tinha um detalhe que deixou o dia ainda maior pra gente. Era a nossa primeira vez pisando na Ásia. Poucas semanas depois embarcaríamos pra Tóquio, então atravessar o Bósforo virou meio que a abertura oficial do ano asiático.
Esse post é o dia inteiro que passamos do outro lado: o ferry, Kadıköy a pé, o que comemos, a fortaleza que os otomanos usaram pra estrangular o estreito e o que não conseguimos ver. Preços em lira, do jeito que pagamos, em fevereiro de 2024.
Vale a pena atravessar pro lado asiático de Istambul?



Vale, e a gente responde isso já sabendo que não é a resposta óbvia.
O lado europeu concentra praticamente tudo o que leva gente a Istambul: a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, o Gran Bazar, o Hipódromo. Tudo empilhado na mesma região. Então dá pra fazer uma viagem inteira sem nunca pegar o ferry, e muita gente faz.
Só que o lado de lá não é uma versão menor do mesmo passeio. É outra coisa. Bem menos ponto turístico, bem mais cidade funcionando: café, doceria, mercado, gente andando. A comparação que fizemos ali na hora foi essa: parece a Península Histórica do outro lado, só que com muito menos gente. Dá pra andar sem ficar desviando de excursão o tempo todo.
Confessando o tamanho do que vimos: foi um dia só, e um dia não fecha um lado inteiro de Istambul. Mas foi o suficiente pra sair de lá querendo ter reservado mais tempo.
Onde a gente ficou (e de que lado dormir)




A gente ficou num apartamento na região de Taksim, ou seja, do lado europeu. Foi a base pra Istambul inteira, e a localização funcionou bem: metrô perto, dá pra descer a pé pro Gálata e o ferry fica a um trajeto curto de transporte público.
Aqui vale uma observação que só entendemos andando. Taksim é vendida como a parte moderna de Istambul, e é mesmo. Só que Kadıköy, do lado asiático, pareceu ainda mais moderna pra gente, no sentido de cidade viva: mais café, mais doceria, mais movimento de quem mora ali e não de quem está visitando.
Se o seu roteiro é curto e focado nos monumentos, dormir do lado europeu economiza deslocamento. Se você quer ficar num bairro com cara de bairro, Kadıköy merece ser considerado. Não testamos hospedagem do lado asiático, então não dá pra comparar preço nem barulho por experiência própria.
Como atravessar: o ferry pelo Estreito de Bósforo




O jeito de ir é o ferry, e ele é bem menos complicado do que parece.
O transporte público de Istambul é muito bom, e o detalhe que facilita tudo é que o mesmo cartão serve pra trem, metrô e também pro ferry. Nada de comprar bilhete separado num guichê diferente.
Como funcionou na prática:
- a travessia custou 30 liras
- uns 20 minutos de porto a porto
- saídas a cada meia hora, mais ou menos
- vários portos dos dois lados, indo e voltando o dia todo
Nem chegamos a conferir o intervalo direito: quando chegamos no porto, faltavam cinco minutos pro próximo sair. Descemos em Kadıköy, que é a parte mais badalada do lado asiático, com mais restaurante e mais comércio, e foi de lá que começamos o dia.
Kadıköy a pé: café, doceria e tapete turco


Assim que saímos do porto, caímos numa rua só de restaurante e café. E aí veio a primeira surpresa boba do dia: a quantidade de doce.
Vitrine de doceria, mesinha na calçada, éclair pra todo lado. Do lado de Taksim vivíamos procurando um café pra sentar e não achava; ali, quarteirão sim, quarteirão também. A Bia levantou a teoria de que o lado asiático simplesmente gosta mais de doce, e a gente já foi rindo de estar criando estereótipo com meia hora de continente novo.
Depois as ruas foram virando mercado: cheiro de especiaria, tempero, azeitona, pão. Numa das ruas, guarda-chuvas coloridos pendurados em cima e tapete turco à venda embaixo. O tapete que vimos estava 16 mil liras.
Vale registrar uma diferença prática entre esse comércio e o do circuito turístico. No Gran Bazar e no Bazar de Especiarias, nada tem preço marcado. Ali, tudo tinha. Continua valendo pedir desconto, porque negociar faz parte, mas pelo menos o preço de partida é o mesmo pra todo mundo, e não o que a cara do freguês sugere.
Onde a gente almoçou: Butme Evi



Paramos pra almoçar no Butme Evi, e o que chamou atenção antes da comida foi a cozinha: um grupo de senhoras fazendo massa à mão no fundo do salão, à vista de todo mundo.
A Bia pediu o ravioli turco, que ela estava doida pra provar desde que chegamos no país. Chegou bem diferente do que conhecemos: raviólis minúsculos, massa macia, uma carninha dentro, servidos com molho de iogurte com alho e um pouco de molho de tomate por cima. Sem queijo nenhum. O molho de iogurte vem frio e a massa vem quente, o que é estranho de descrever e muito bom de comer.
O Doug foi no que as senhoras estavam preparando ali atrás: uma massa bem fina, assada na chapa quente, recheada com três queijos (tinha feta, tinha queijo branco e tinha mais um), salsicha e azeitona. Nem arriscamos a pronúncia do nome, sinceramente.
A comparação inevitável foi com o gözleme, que já tínhamos comido em outro vídeo. O gözleme é massa filo, mais molinha por dentro. Essa era bem mais seca e bem mais crocante, um pouco mais salgada, provavelmente pelo azeite somado aos queijos. Acompanhou um iogurte salgado tipo ayran.
A conta dos dois pratos deu 345 liras, uns R$58.
O parque de Moda, o Mar de Mármara e as águas-vivas



Descemos algumas quadras do centrinho de Kadıköy e chegamos num parque de frente pro mar, o Kadıköy Moda Sahil. Tem playground, tem área pra criança e tem uma pista comprida onde as pessoas caminham, correm e andam de bicicleta.
O mar ali é o Mar de Mármara, e a vista atravessa de volta: dá pra ver o lado europeu no horizonte, com as mesquitas recortadas ao fundo. Num dia bom, e o nosso estava, a água fica brilhando.
Não é praia, é tudo pedra. Mas a água bate nas pedras tão transparente que dá pra ver o fundo. E dá pra ver também a quantidade absurda de água-viva.
Muita mesmo. Já tínhamos visto o mesmo na travessia da Ponte de Gálata, na parte mais rasa. Lendo sobre o assunto depois, a explicação que aparece é a pesca excessiva: sumindo a cavalinha e a sardinha, que comem água-viva, some o predador natural e a borda do Bósforo fica tomada.
Suco de picles: a bebida mais inusitada da Turquia



Essa foi a parte mais esquisita do dia, e a gente entrou nela sabendo.
Suco de picles é exatamente o que o nome diz: a água em que o picles é curtido, servida em copo, pra beber. É tradicional na Turquia e virou moda por conta da saúde, porque é basicamente sal e eletrólito, então até atleta toma. Um Gatorade turco, guardadas as proporções.
A loja sozinha já valia a parada. Picles de tudo que dá pra imaginar: cabeça de alho inteira, nabo, beterraba, uva, coisas que olhamos e não soubemos identificar, inclusive, juramos que uma delas parecia pinha de Natal.
Esperávamos um copinho só com o líquido, mas o moço foi enchendo o copo de pedaço de picles junto, e o que era pra ser uma bebida virou quase uma tigela. Tem versão apimentada e versão sem pimenta; ficamos na sem.
O veredito: melhor do que temíamos. O gosto é de picles mesmo, bem forte e bem azedinho, e achamos que ia ser muito mais salgado do que foi. Quem gosta daquele azedo de conserva vai gostar. E, como o Doug resumiu na hora, tem o sódio da semana inteira num copo só.
Custou 30 liras, uns R$5. É a coisa mais barata que a gente fez no dia e provavelmente a que mais rendeu história.
Fortaleza de Anatólia: uma hora de ônibus e 100 liras



Aqui foi onde saímos do roteiro de Kadıköy de verdade. Pegamos um ônibus na rodoviária de Kadıköy e levou quase uma hora até a Fortaleza de Anatólia, subindo o Bósforo. Também dá pra fazer parte do caminho de barco, mas aí precisa pegar dois.
A entrada custou 100 liras por pessoa, 200 liras pelos dois, uns R$33. E, sendo honesto, foi um alívio: chegamos com medo de ser mais um ingresso de 20 euros, porque atração turística na Turquia não estava fácil naquele momento. Essa foi barata.
Por dentro é simples, e é bom saber disso antes de subir: escada, um ou dois cômodos e um filminho curto que dá uma ideia de como era antigamente. O que você compra com as 100 liras é a subida e a vista.
E a vista entrega. Do alto dá pra ver o Estreito de Bósforo inteiro, uma das três pontes que ligam a Europa à Ásia e, do outro lado da água, a fortaleza irmã, a de Rumeli. As duas são parecidas e foram construídas pra trabalhar em par.
Uma dica que ouvimos ali mesmo e não chegamos a testar: a fortaleza do outro lado parece ser de graça pra subir, porque não tinha catraca nem nada pra escanear. Se você não quiser pagar as 100 liras, talvez dê pra atravessar e subir a outra. Uma parece ser mais alta que a outra, mas a vista deve ser boa dos dois lados. Fica como possibilidade, não como recomendação testada.
Do lado da fortaleza tem um palácio grande de frente pra água. Pelo que pesquisamos na hora, era palácio de verão de sultão. A piada que sobrou foi essa: palácio de verão normalmente é casa de praia em lugar quente, e de um lado do Bósforo pro outro não deve mudar tanto o clima. Mas dinheiro é dinheiro.
Por que o Estreito de Bósforo importa tanto

A fortaleza só faz sentido quando você entende o que ela está guardando, e essa é a parte que achamos mais interessante do dia inteiro.
Os otomanos construíram a Fortaleza de Anatólia no século XIV, antes de tomarem Constantinopla. E construíram a de Rumeli do lado europeu de propósito, no ponto mais estreito do estreito. Com uma de cada lado, todo barco que quisesse passar precisava de autorização. Quem não pedia, levava canhão.
A queda de Constantinopla veio em 1453, e é aí que a história encosta no Brasil. Com os otomanos dominando a região, o caminho terrestre dos europeus pra Índia ficou caro e perigoso. Foi isso que empurrou os europeus a procurar outras rotas pelo mar, e uma dessas rotas acabou nas Américas. A gente cresceu estudando o descobrimento e não tinha feito a ligação de que ele começa, em parte, num estreito que dá pra ver de cima dessa fortaleza.
Uma correção que vale fazer, porque é fácil imaginar errado: Constantinopla não caiu num dia. Foram anos de disputa, ida e volta, e essas fortalezas foram usadas nesse processo todo. A queda marca o fim da Idade Média e o fim do Império Romano do Oriente, mas ela é o final de uma novela longa.
E o estreito continua importando hoje. Ele é o único acesso por mar entre o Mar de Mármara e o Mar Negro, o que faz dele passagem obrigatória pra países que dependem daquela saída. Pelo Tratado de Montreux, é a Turquia que controla quem passa. Em tempo de paz, barco comercial e de turismo passa normalmente. Em tempo de guerra, navio de guerra pode ser barrado, e foi o que a Turquia aplicou no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Jantar em Kadıköy: mexilhão recheado e sanduíche de mexilhão

Voltamos de ônibus pra Kadıköy pra jantar, e o jantar foi todo em cima de mexilhão, num lugar chamado Kadıköy Midyecisi.
Começamos pelo midye dolma, o mexilhão recheado. Vem na concha, mas com arroz bem temperado dentro junto com o mexilhão, e você espreme limão por cima. A Bia já tinha comido mexilhão em Liubliana, só que puro, sem recheio. Esse ela aprovou e já virou umas das comidas favoritas de Istambul.
Depois veio o que virou o melhor prato do dia: o sanduíche de mexilhão frito. Mexilhão empanado e frito, pão quentinho e um molho que é uma mistura de tártaro com iogurte. O empanado fica crocante de um jeito que não esperávamos, e o sabor de mexilhão quase some, fica mais suave do que camarão.
A Bia gostou tanto que pediu outro na hora, e depois pediu pra sair do lugar antes que pedisse o terceiro. No cardápio tinha versão quente, versão com molho e versão apimentada; ficamos na clássica e não nos arrependemos. Time que está ganhando não se mexe.
O jantar inteiro, os dois comendo, deu 370 liras, uns R$62 em fevereiro de 2024.
Ficou uma vontade não realizada: os carrinhos de rua de arroz com frango e grão de bico, que vimos o dia todo e não chegamos a provar.
Bomba de Esmirna: a sobremesa que a gente foi comparar depois


A última parada foi uma bomba de Esmirna numa casa chamada Bombacı Mülayim, doce que vínhamos vendo em vídeo e queríamos experimentar. Saiu 60 liras, uns R$10.
Por fora parece um mochi: uma casquinha branca e muito fina, daquelas que você olha e não entende como não estoura. Por dentro, uma camada de geleia de framboesa em volta e chocolate no meio.
Comemos essa em Kadıköy de propósito, pra ter uma base de comparação, porque a próxima parada da viagem era justamente Esmirna e a ideia era comer a de lá também.
Aí começou a chover, o lugar encheu e ainda tínhamos que atravessar de volta pra Europa. Fim de dia.
O que a gente não conseguiu ver



Duas coisas ficaram de fora, e vale registrar as duas pra você não repetir o erro de planejamento.
A maior mesquita da Turquia fica do lado asiático. Sabíamos, e mesmo assim não fomos: ela fica bem longe do trajeto que montamos e, no dia em que fomos, estava fechada pra visita. Sexta-feira é o dia de oração pra quem segue o Islã, o equivalente ao domingo, e nesse dia a visitação costuma não rolar. Se a mesquita for prioridade pra você, escolhe outro dia da semana e conta com o deslocamento.
A outra é mais simples: um dia é pouco. Entre o ferry, Kadıköy, quase uma hora de ônibus pra cada lado até a fortaleza e o jantar, o dia fechou. Não sobrou tempo pros outros bairros que queríamos conhecer mais pra cima.
Dicas práticas pro lado asiático

O resumo do que faríamos diferente, ou faríamos igual:
- o cartão de transporte cobre o ferry, então não precisa de bilhete separado
- a travessia é curta, uns 20 minutos, e sai a cada meia hora mais ou menos
- reserva o dia inteiro se quiser passar de Kadıköy; a fortaleza sozinha come quase duas horas de ônibus ida e volta
- no comércio de bairro tudo tem preço marcado, diferente do Gran Bazar; ainda dá pra negociar, mas você parte de um número honesto
- evita sexta-feira se a mesquita estiver no seu roteiro
- leva fome: o dia é muito mais sobre comer do que sobre monumento
Os preços aqui são de fevereiro de 2024 e em lira turca, que é uma moeda que se move rápido. Na época a conta fechava em torno de 1 lira para R$0,17. Trata os números como ordem de grandeza, não como tabela.
O dia inteiro, comida e ingresso pelos dois, ficou em torno de 1.000 liras, uns R$170. Fora disso só as recargas do cartão de transporte, que a gente carregou 103,50 liras de cada vez e não zerou no dia.
A pergunta que levamos pro ferry era se o lado asiático de Istambul valia o deslocamento, e a resposta que voltou com a gente é que sim, com um ajuste de expectativa. Não é um lado cheio de ponto turístico igual o europeu. É um lado pra andar, comer e ver a cidade funcionando.
Foi também a primeira vez que pisamos na Ásia, e olhando pra trás foi uma abertura e tanto pro que veio depois: Esmirna, Éfeso, Pamukkale, Capadócia e, algumas semanas na frente, o Japão.